Há uma porta aberta para todos!

Mensagem da Quaresma dos bispos de Beja

Queridos irmãos e irmãs:

1 – A nossa vida é uma Páscoa, uma passagem. Estamos no mundo, mas não somos do mundo. Porque fomos batizados, somos cristãos. Porque somos cristãos, precisamos de viver batizados, quer dizer, mergulhados no mistério de Cristo, para não perdermos a consciência da nossa identidade de filhos de Deus e não ficarmos mundanizados como aqueles que vivem sem esperança. Mergulhamos neste admirável mistério que nos habita sendo membros vivos da Igreja nossa mãe, fazendo oração e celebrando os Sacramentos, sobretudo a Reconciliação e a Eucaristia, pelos quais nos unimos a Cristo, para vivermos n´Ele e Ele em nós. A prova real de que isso acontece mesmo vê-se no facto de, pelo Espírito Santo que nos habita, podermos obedecer à vontade de Deus no nosso dia-a-dia e nos tornarmos seus imitadores, praticando as Obras de Misericórdia.

2 – Prestes a entrar na Quaresma pela qual nos preparamos para a celebração anual da Páscoa que é a fonte da Salvação para o mundo inteiro, queremos fazer ressoar para cada um de vós o querigma, o coração pulsante da pregação dos apóstolos, que sempre se tem de voltar a anunciar, como diz a mensagem do Santo Padre.
Tu que estás lendo estas palavras pára um momento e repara, com olhos de ver, na vida que levas ou que te leva: vives para quê? Vives para quem? Deus conhece-te profundamente e ama-te assim como és, neste momento concreto da tua vida. Não desistiu de ti que tantas vezes O ignoras e desprezas para te afundares no egoísmo com que, sem dares por isso, levantas os muros da tua solidão e edificas o teu inferno personalizado. O Senhor vem libertar-te daquilo que te impede de amar e de ser feliz, para que em ti se cumpra o desígnio de amor para o qual foste criado. O Filho de Deus, Jesus Nosso Senhor, morreu na cruz carregando com os teus pecados e ressuscitou, venceu a morte, para que, liberto do pecado e do medo de morrer, possas amar os outros e deixar de viver para ti mesmo. Criado para uma vida sublime, divina, encontras-te encalhado numa vida miserável e sem horizontes! Há uma porta aberta para todos no Coração humano de Deus! Cristo, Bom Pastor, vem à tua procura cheio de misericórdia. Não sejas mau para ti mesmo! Deixa-te encontrar por Ele, entra pela porta que é Ele e saboreia a doçura da misericórdia do Pai!

3 – Na Igreja recebemos a graça de Deus e o Seu Espírito que faz de nós pessoas reconciliadas, pacificadas, capazes de fazer o bem. Esta conversão e esta transformação não se resumem a uma iluminação da inteligência que nos dá uma nova perspetiva do mundo, da vida e de nós próprios. Trata-se de uma cultura e de um percurso espiritual que se faz em Igreja, com outros irmãos. Ninguém pode ser cristão sozinho. As Peregrinações Jubilares à Porta da Misericórdia da nossa Catedral, para as quais todos vós estais convidados, marcarão a Quaresma e a Páscoa deste ano e visualizarão a nossa condição de Igreja a caminho, em conversão permanente. Cultivar a vida cristã é cultivar a comunhão fraterna, comunhão que nos ajuda a ser livres em relação aos bens materiais e aos afetos e submissos a Deus, e nos ensina a adorá-l’O em espírito e em verdade. A oração, o jejum, a esmola, são expressões e instrumentos dessa cultura, dessa justiça nova que o Espírito do Senhor realiza em nós, com a nossa colaboração.

4 – O Santo Padre convida-nos a viver a Quaresma deste Ano Jubilar praticando as Obras de Misericórdia corporais e espirituais que sempre devem andar juntas, porque não podemos cuidar apenas do corpo ou apenas do espírito, uma vez que o ser humano é um todo. As Obras de Misericórdia não são meros episódios de altruísmo: são obras de amor de Cristo aos pobres, realizadas por meio de nós cristãos; são obras de amor nosso a Cristo, presente nos necessitados. Como refere a mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma, realmente, no pobre a carne de Cristo torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga (…), e mais ainda quando o pobre é o irmão ou irmã em Cristo que sofre por causa da sua fé. Motivado por esta consciência e sensível ao drama de tantos cristãos que no Médio Oriente são perseguidos, o Conselho Presbiteral da nossa Diocese de Beja sugeriu que o produto da Renúncia Quaresmal deste ano lhes seja destinado. A propósito, a Renúncia Quaresmal do ano passado, destinada a ajudar as vítimas da erupção vulcânica na ilha do Fogo em Cabo Verde e às obras da Sé somou apenas 20 415,42 €. Dizemos apenas porque estamos convictos de que, apesar de sermos poucos, podemos e devemos ajudar mais. Como comunidades cristãs que somos, não podemos dar apenas qualquer coisa para afastar a má consciência. Não fiquemos indiferentes ao sofrimento e às privações dos nossos irmãos.
Se conheces a misericórdia de Cristo para contigo, sê misericordioso! Se conheces a generosidade de Cristo e o seu amor, ama os teus irmãos e sê generoso tu também! Se tens consciência de que pecas muito por pensamentos, palavras, atos e omissões, lembra-te que a esmola cobre uma multidão de pecados e dá com generosidade, não apenas do que te sobra, mas também do que te faz falta. Priva-te de alguma coisa durante a Quaresma por amor de Cristo para socorreres Cristo, que te ama tanto, presente naqueles que sofrem.

5 – Amados irmãos e irmãs: convertamo-nos ao Senhor no tempo favorável que Ele nos oferece nesta Quaresma, reconhecendo e confessando os nossos pecados no Sacramento da Reconciliação pelo qual se renova o Batismo e a vida cristã. Cultivemos a verdadeira piedade, a intimidade com o Senhor na oração, que dará a simplicidade e a beleza da sua graça ao nosso viver. Praticando o jejum, esvaziemo-nos da nossa soberba e autossuficiência para sermos mansos, humildes e acolhedores para com o próximo. Pratiquemos a esmola com a mesma generosidade e largueza com que o Pai cuida de nós e nos enche de bens. E a glória do Senhor Ressuscitado resplandecerá em nós e na Igreja, ao celebrarmos a Páscoa que se aproxima.

Ajudemo-nos nesta caminhada quaresmal, rezando uns pelos outros.
O Senhor vos abençoe e faça frutificar a vossa caminhada quaresmal.

† António Vitalino e † João Marcos

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